quinta-feira, 2 de outubro de 2008

do reino da dinamarca

Passei tempos e tempos tentando descobrir onde havia enfiado um velho recorte de jornal em que estava escrito esse divino poema do dinamarquês Peter Poulsen, com tradução de José Paulo Paes. Hoje, escabichando (eu, hein...) algumas caixas-depósito, enontrei-o de posse de algumas kafkianas metidas à besta. Fiz um acordo com as ditas: Elas me deixariam publicar Poulsen no meu blog, e eu as deixaria em paz no seu salão particular de leituras. E assim foi. E aí tá o poema completinho pra todos vocês.

SE EU FOSSE HAMLET

Se eu fosse Hamlet
comprava flores para Ofélia, goma de mascar inglesa,
transistor com fones de ouvido,
champanhe, palitos --
e a convidaria para viajar
a Florença ou Roma.

Se eu fosse Hamlet
dava de presente a ela uma gaiola cheia de pipilantes tentilhões
um par de patins de estela do gelo
uma permanente para os aerobarcos suecos.

Se eu fosse Hamlet
me concentrava na minha vida amorosa
em vez de ficar a remoê-la por aí;
loteava Kronborg
em apartamentos de condomínio,
e ia morar numa casa em Fiolgade
-- talvez comprasse até um colchão de água --

Se eu fosse Hamlet,
mandava às favas todas as especulações sombrias
e seria mais do que sou agora,
em vez de ficar só pensando a respeito
e fazendo longas preleções sobre.

Não me intrometeria mais na vida sexual de mamãe,
se eu fosse Hamlet.
Admitiria logo que o velho está morto
e não ia mais perambular pelas noites escuras atrás
de um fantasma que no coração só tem vingança.

Se eu fosse Hamlet,
deixava Polônio ficar atrás das cortinas
tanto quanto lhe desse na telha:
afinal de contas é só um velho gagá --
e me recusava a andar, fosse onde fosse,
com tipos tão ridículos quanto Gildensfúncio e Rosentonto
ou como quer que se chamem --

Se eu fosse Hamlet,
ia farrear com Horácio
beber chope com Frank Jaeger,
jogar dados com marujos nalgum boteco do porto,
andar com donas suecas,
mandar tatuar no braço:
"Ophelia, I Love You",
logo abaixo de um coração em chamas --

isso se eu fosse Hamlet.

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