segunda-feira, 26 de maio de 2008

na prática

No já distante tempinho da escola primária, quando não tínhamos idéia do que era um parágrafo, ou de que um texto era um simples encadeamento deles [os parágrafos], nossa folha em branco - não me recordo do uso de "redação" à época - ficava esperando que alguma palavra aumentasse a nossa ação escrita. Ficávamos ali, tamborilando o lápis no papel, a espera de um insight (insight?). Aquela linhazinha reta e permanentemente branca sempre esperando um algo que se pudesse acrescentar ao que tanto queríamos dizer, às vezes nos exasperava (essa era uma das tais, assim como o tal do "insight" que ainda não faziam parte de nosso repertório e, portanto, impossível para nós o seu uso).
Sem prolemas. Esse tempo todo passou e ainda hoje vivemos e sabemos das dificuldades da arte da escrita a nos atrapalhar com seu começo, meio e fim aristotélico. Poucos são os que conseguem tê-la em seu domínio. Eu, infelizmente, sofro pela falta dessa técnica.
Bom tempo aquele em que sintaxe, semântica e harmonia eram ferramentas já nossas, mas só pra depois: depois que soubéssemos que narração, descrição, dissertação e diálogo eram os processos básicos dessa coisa de escrever. Da mesma forma como seria bom para nós que já naquela época, soubéssemos que a prática constante da escrita era a linha certa para o seu domínio.

domingo, 11 de maio de 2008

sumiu...


A locução substantiva pôr do sol (assim, sem hífen, no Houaiss) forma um plural horroroso: pores do sol.
Eu acho o instante lusco-fusco o pior momento na vida da natureza. O astro quente carregando um coqueiro esquálido ao longe do mar é a cena que mais me deprime. Creio deve fazer o mesmo com muita gente, apesar de parecer ser a imagem que as pessoas mais gostam de fotografar. Pra mim isso é de uma bregueirice tamanha! Minha irmã mesmo adora clicar malditos pores do sol. Até comprou um desses quadros com o astro rei se fudendo ao fim da tarde atrás de uma duna. Como ela viajou e aquela moldura me deixava sempre mal-humorado, eu presentei o velhinho que lava as escadaria aqui do prédio com a paisagem do sol tomando no cu. Depois fiquei sabedo que o desgraçado do vovô trocou-o por uma garrafa de pinga. Isso me deixou tão feliz que dei mais cinco "conto" ao velhote.

sábado, 10 de maio de 2008

heteronomia


Das tantas coisas menos tóxicas para fazer no fundo trânsito das carnes de livre circulação das trabalhadoras sexuais precárias do começo da noite (exigências que qualquer um tem no dia-a-dia), sabia ele de algumas boas depravações do corpo e da alma, vitimado que era, dizia, ora por reações frente a desejos inconscientes, ora por um desequilíbrio químico no cérebo ou por uma pulsão de gosto quase suicida de tão mortífero. Ou talvez tudo isso apenas para evocar a lembrança de que a natureza não produz cheiro melhor que o da nervura do cabaço.

Meninas de primeiras rugas no canto dos olhos, de forte perversidade, usando calcinhas com secreções do vício inteiro da ronda de ontem, tinham sua predileção. Até o aroma de isca de danação do entre-pernas das funcionárias de supermercado, marcados por um longo período de imobilidade na labuta, o deixava em trasnfusão de gozo hediondamente franco - ainda fossem estas bem improváveis a seu relacionamento. Pra falar a verdade, apenas algumas de todas as garotas vagas daqueles confusos horários, onde por vezes se perdia, trazia-lhe o efeito colateral desejado, e que combinava perfeitamente com sua língua despida de culpa e sua ética sem orientação prévia. As limpinhas não o eretavam, e sim as de coxas e xotas vetadas pela vigilância sanitária. Disso parecia nascer sua confortável acomodação olfativa, aliviando seus mais baixos instintos.

Seu vício era farejar as de péssima qualidade de vida, fragilizadas pelo horário nobre. Evitava nelas as regiões de desejos covardes - tradicionalmente voltadas para atividades pouco eróticas - como o cabelo, o pé, o cangote, o suvaco, o umbigo, os pulsos, a orelha, as unhas e tantas outras partes até dignas de uma boa fudeção, como o cu, por exemplo. Ia direto pros países preguentos e empoeirados pela fuligem cotidiana dos porões negros e enfumaçados, após sussurrar-lhe sempre uma cantada frouxa: - "Não estou preparado por dentro."

Seu apetite estava ali na lã maciez da culpa de seus delírios profundos, nas esquinas subterrâneas das florestas úmidas de seu sublime, que lhe nodoavam na língua uma espécie de avenca imunda e truculenta da bruta esfrega dos seus lábios naquela gruta escrota. Alí, naquela lasca de carícia, era onde ele, trêmulo de tanto inconfessadamente sentir seus arrepios, pegava o seu alimento, colocava na boca, triturava e misturava num macerado escarro de escura água circular, para depois tornar ao poço charco da claridade presa, e ingerir.

Lamber, sorver, sugar, chupar eram verbos sessenta e nove vezes gasto em seu gesto e gosto libidinoso.

Tinha como hábito resistir às primeiras cenas para, após os dez primeiros instantes, asumir-se, em alegrias bizarras, ao cheiro forte das personagens de recompensas estimuladas. Encenava seus conchavos e transas sempre em recantos sujos e pobres, procurando mantê-los em luz paciente para não perder os vermes abaixo do pulsar da pele de suas perversões.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

restos mortais

vou usar todo meu prazo de validade
devolver toda minha vaidade
vou parar de me suportar
não quero acompanhamento médico
e sim o meu próprio cansaço

a a alencastro

ocasional

num certo instante de tudo
um tanto de mim é sorte
dum acaso que não se sabe
outro todo de mim é morte
nesse pouco tempo de uso
do que vem de agora em diante

a a alencastro

perdas e danos

gastei todos os segundos em
existir
usei quase tudo à toa
ganhei nas noites ruins
e o que era pra ser não sei

a a alencastro

eu

não me pretendo poeta
poe
pound
blake
nem me estendo
encerro aqui

a a alencastro

eucaristia

tanto pranto trato espanto
e nem assim deus quis nada comigo
mesmo assim fez assim
deus assim comigo
e eu agora seu inimigo
preparo-o como prato do dia

prato trato pranto
não se espante
deus que já estava morto
agora tá no ponto
pronto

vai ser o meu pacto do dia

é um corpo complicado
mas não é contra-indicado
logo
deus está no papo

e eu alimentado de vez
sinto o cheiro de deus consagrado em meu sangue
ganho o antes de deus misturado em meu transe
e me torno em deus
agora eu sou deus

e no instante dessa nova eterna e absurda aliança
noto o resto de deus derramado em meu gosto
gasto o rosto de deus depurado em meu riso
e me farto de deus

agora adeus

a a alencastro

doors

DoorsThe End, Love Her Madly, When The Music's Over, Riders On The Storm, Strange Days, Universal Mind Break On Through (To The Other Side), The Unknown Soldier, Soul Kitchen, L.A. Woman,
O nome deste lugar, como vocês sabem, é GRITARAXIA, e se ele cantasse teria que ser na furia da Janis Joplin. Não há nada que a voz dela não possa fazer, desde os GRITOS mais descomunais de suas cordas vocais a serviço de Catch me daddy até as notas mais suaves.
Tô dizendo isso tudo, mas conheço e entendo pouquíssimo de bandas e músicas, inclusive este blog poucamente (gostou?) vai abordar o tema por aqui, mas nem por isso vou deixar de dizer que "The Union Forever", do White Stripes, apresenta um Jack com uma guitarrinha bem bruta. Quanto a listinha aí de cima: the end!